Tratando-se de vício, ninguém imagina que pode se tornar uma das vítimas, pois muitos acreditam que a condição deplorável a que um ser humano pode chegar jamais baterá à sua porta. As redes sociais, por sua vez, são uma das principais causadoras de problemas psicológicos em nossa sociedade, afetando tanto quem produz conteúdo quanto quem o consome.
Por trás das métricas brilhantes e do faturamento em dólar, existe um mercado invisível que comercializa a nossa sanidade. Torna-se fundamental compreender a fundo esse mercado das redes sociais — ou melhor, da internet —, cuja estrutura expõe a anatomia do sistema. Na crônica a seguir, testemunhamos o momento exato em que o manipulador de algoritmos descobre que, na verdade, ele é a verdadeira presa, engolido pelos mecanismos de um software que cega o indivíduo em nome do lucro.— Olá, doutor!
— Olá! Como vai você?
— Eu vou bem, doutor. Hoje em dia, eu sou empreendedor!
— Que legal! Qual é o seu tipo de empreendimento?
— Hoje em dia, sou buscador de likes nas redes sociais. Além disso, sou bom em fazer as pessoas discordarem umas das outras e encherem minhas postagens com comentários fúteis, que acabam mostrando quem elas realmente são.
— Nossa, como isso funciona?
— Eu vendo tristezas que comovem os outros com facilidade, vendo brigas e discussões. Quando não há assunto polêmico, eu o crio. Além disso, uma das receitas que geram muito engajamento é, nada mais, nada menos, que espalhar fake news e discursos de ódio, muitas vezes com termos preconceituosos. Meu salário é em dólares e não tem um dia em que eu não me divirta.
— O que o traz aqui?
— Hoje em dia, doutor, não consigo ler os comentários das minhas postagens. Se eu leio, enlouqueço. O celular se tornou um tormento e sequer consigo viver sem ele. Se posto tristezas como desabafo, chamam de "mimimi" e me taxam de vitimista; se posto uma denúncia séria, alegam que quero somente likes. Qualquer postagem hoje em dia é vista como nada mais, nada menos, que "lacração". E o bom, doutor, é que tudo isso gera muito engajamento.
Mas quem se importa com isso diante das Big Techs, que lucram muito às custas de usuários presos à tela, presenteados com o que o algoritmo tem a proporcionar? À medida que a tecnologia avança, o ser humano se torna presa de gigantes que o manipulam de diversas formas. Por mais que haja denúncias de que as redes sociais são uma das maiores causadoras de problemas psicológicos, o prêmio que elas oferecem prende o indivíduo miseravelmente.
O doutor olhou para o paciente e passou as devidas receitas para que ele ao menos conseguisse dormir e recuperar o controle emocional. Esta é uma das vítimas que ao menos ainda reconhecem o grau de seus problemas. Porém, diante dos ganhos dessas redes que enriquecem às suas custas, isso se torna um nada, pois há quem negue toda a causa do problema.
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