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27 setembro, 2026

A Bíblia Como Armadura: Por Entre o Preconceito e a Afirmação da Justificativa de Suas Próprias Maldades

Até nos dias atuais isso seria malvisto: pensar em Maria, uma mulher virgem, engravidar e que ela iria gerar o Messias. Naquela época, ela se sujeitava a julgamentos severos e à própria morte por apedrejamento pela lei local por estar grávida antes do casamento. Antes da gravidez, os anjos vieram até ela e falaram sobre a missão que ela iria carregar, e depois falaram para José. O mesmo que aconteceu naquela época, na época de hoje iria acontecer: a desconfiança que foi gerada até mesmo por José, que sabia, por sua vez, que Maria não tinha se relacionamento com ele. Diante da lei do julgamento e da condenação, seja na internet ou fora da internet, ambos seriam condenados pelo resto da vida e até mesmo pelo sistema migratório.

A profecia tinha que ser seguida. Você acha que era de interesse de Maria e José sair de sua região? Não, não mesmo. Esse é um dos inícios migratórios da humanidade, em que ambos tinham que sair de sua localidade para outra, muitas das vezes devido às condições de sobrevivência que o local oferecia, ao preconceito já existente que colocava em dúvida a fé de um e de outro, ao império e à necessidade de pagar imposto. Maria e José tiveram que sair, abandonar a própria casa, a família e o povo daquela região devido até mesmo ao impacto que ali iria ser causado ao descobrirem a gravidez de Maria e ao perigo que ela corria. Essa passagem escancara a forma como ambos já eram reféns até mesmo do preconceito daquela época, e a mulher, refém do apedrejamento como forma de lição às demais mulheres. Mas por que eles não conseguiam estadia por onde passavam? Justamente por se tratar de duas pessoas e uma mulher grávida que saíram de sua região para outra, e pela não aceitação deles e do direito migratório que também muitos tentavam negar.

E insisto: muitos dos acontecimentos bíblicos não refletem a nossa atualidade, mas, mesmo assim, há quem busque fazer com que continuem se perpetuando, utilizando-se até mesmo dos ensinamentos bíblicos para justificar a própria maldade, o preconceito, as guerras, a intolerância religiosa e até mesmo mortes. Mas não se trata somente de distorções do que está na Bíblia, mas de muitas das passagens presentes que refletem justamente a intolerância, a misoginia, a homofobia e a xenofobia daquela época; passagens que muitos usam como forma de blindar a si mesmos de suas próprias crueldades e desumanidade para com os outros, para com a religião que cada um segue ou para com a fé de cada um (seja ela pequena ou imensa). Coisas de quem quer carregar a Bíblia como uma verdade única, inquestionável e intocável, abrindo portas para a intolerância e o asfixiamento psicológico.

Maria grávida e José caminham cabisbaixos por uma antiga vila de terra, carregando pertences enquanto homens apontam e os julgam ao redor. Imagem realista gerada por Inteligência Artificial
Maria grávida e José caminham cabisbaixos por uma antiga vila de terra, carregando pertences enquanto homens apontam e os julgam ao redor. Imagem realista gerada por Inteligência Artificial.




24 setembro, 2026

O Mercado de Ilusões: Parem de Brincar com Nossos Sonhos

Parem de brincar com os nossos sonhos, com as nossas crenças, com a nossa sede de almejar o sucesso através do nosso processo de formação e da nossa capacidade de criação e construção. Que parem de enganar a nossa juventude através de falsas promessas de ganhos na internet e de suas limitações.

Parem de nos transformar em produtos da internet e de nos tornar reféns dessa estrutura psicologicamente destrutiva das rolagens infinitas das redes sociais, dos vídeos de 15 segundos e de uma possível viralização. Parem com a venda da nossa imagem exposta, transformando-nos, muitas vezes, em meros produtos sexuais.

Parem de nos transformar em caçadores de likes a ponto de postarmos o que há de mais horrendo e proferirmos discursos de ódio como se fôssemos seres insensíveis, a ponto de transformar a dor alheia em vitimização e "mimimi".

A tecnologia avança a passos largos, e, à medida que esse progresso acontece, a sociedade se torna cada vez mais refém dele. Parem de transformar jovens e adultos sonhadores em uma mera "Geração Z" que rotulam como se não quisesse trabalhar. Assumam que nos venderam a falsa ilusão de que todos podem ser empreendedores na internet (e até mesmo na vida real). Muitos lucram com isso através da venda de cursos ilusórios, promovidos geralmente por quem já tem capital, e que, além de obterem o próprio ganho, geram mais lucro ainda às gigantes da internet.

Parem de usar o pobre que tem a sorte de obter êxito em suas conquistas como forma de gerar novas iscas. Parem de transformar vidas em aparências na internet, onde muitos ostentam uma falsa riqueza que não têm — muitas vezes estipulando grandes ganhos mensais — para gerar engajamento e lucrar através de programas de indicação e afiliação. Tudo isso à custa daqueles que apenas tentam almejar os seus sonhos e, quando entram nesse jogo, sentem na pele o quanto foram enganados, restando apenas a frustração.

Imagem gerada por IA mostrando jovens presos em uma tela digital, cercados por notificações e textos sobre as ilusões das redes sociais, ilustrando a frustração com o mundo virtual
Imagem gerada por IA mostrando jovens presos em uma tela digital, cercados por notificações e textos sobre as ilusões das redes sociais, ilustrando a frustração com o mundo virtual.


22 setembro, 2026

Segurança Pública Além da Repressão: Integração Social e o Papel das ONGs

 A polícia não deve assumir apenas o papel de autoridade; pois, enquanto buscar focar somente nessa função, continuará sendo mal vista pela própria sociedade. A instituição deve, por sua vez, abraçar uma função social de amparo e integração por meio do serviço comunitário. Isso pode ser feito pelo atendimento aos interesses locais, seja com palestras educativas, distribuição de cestas básicas ou projetos sociais de reforço escolar e conscientização. Aquele que exerce uma autoridade pura e repressiva está sujeito a cometer injustiças. O respeito real não se adquire por meio do grito, da opressão ou do preconceito socioeconômico — que marginaliza ainda mais as periferias —, mas sim pela confiança. Desse modo, torna-se fundamental diferenciar o medo do verdadeiro respeito por meio da justiça e da dignidade.

Paralelamente, embora os debates acerca da desmilitarização ganhem força, a sociedade civil demonstra não estar preparada para essa transição. Esse conceito tem sido amplamente deturpado pelo senso comum, que confunde a desvinculação da doutrina militar com a própria extinção da força policial ou o colapso da segurança pública. Essa visão equivocada desmorona diante de uma análise técnica sobre o tema, uma vez que o verdadeiro sentido desse processo não pressupõe desarmar a instituição ou torná-la refém da criminalidade, mas sim humanizar a sua atuação.

Trago como exemplo o Projeto Patrulhando a Cidadania, do Batalhão da Polícia Rodoviária da Bahia, do qual fiz parte e fui aluno. Esse projeto tinha um papel muito importante na comunidade local e em outras localidades, acolhendo diversas crianças e jovens em situações de extrema vulnerabilidade — muitos, inclusive, com sérios problemas psicológicos decorrentes da própria base familiar e da estrutura de violência local. Hoje em dia, esse projeto não funciona mais no Batalhão de Polícia Rodoviária da Bahia devido à mudança do coronel e à sua não aceitação da iniciativa, sob a alegação de que aquele ambiente não era propício para crianças e jovens. O projeto, como organização não governamental, ainda tentou sobreviver em outro local; mesmo assim, por carecer de apoio, atualmente não sei se funciona devidamente. Contudo, sei que a desconstrução dessa iniciativa contribuiu muito para que muitos ganhassem outros destinos — e piores —, o que acaba, por sua vez, sustentando as facções criminosas.

Ao discorrer sobre essa questão, não se busca reforçar a ideia de militarização da educação pública — modelo que também não se apresenta como solução —, mas sim abordar uma urgência maior: o amparo e a humanização daqueles que assumem o papel de autoridade e de defesa comunitária. Essa perspectiva também deve ser ampliada para o acolhimento de projetos não governamentais que realizam um excelente trabalho social, mas enfrentam a escassez de recursos. Muitas vezes, essas iniciativas operam na informalidade e, pela ausência de um CNPJ, ficam impossibilitadas de captar investimentos de empresas privadas ou de obter os devidos suportes governamentais, tornando-se reféns da burocracia para garantir a sua própria sobrevivência

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